Uma aflição imperial

Enquanto a maré banhava a areia da praia, o Homem das Tulipas Holandês contemplava o oceano:
- Juntadora treplicadora envenenadora ocultadora reveladora. Repare nela, subindo e descendo, levando tudo consigo.
- O que é? - Anna perguntou.
- A água - respondeu o holandês. - Bem, e as horas.

- PETER VAN HOUTEN, Uma Aflição Imperial.

domingo, 6 de abril de 2014

- Há quanto tempo estamos aqui?
- Duas horas. Sua mãe vai te matar, não vai?
- Quem se importa? Já estou morta faz muito tempo, só esqueci de cair. - E a menina dos olhos amargamente doces solta uma riso pesado, carregado de dor.
- Se você se considera mesmo uma pessoa morta por que ainda conversa comigo?
- Não sei, ótima pergunta. É melhor eu passar a te ignorar e só contar as estrelas.
- Ok.
...
- Curioso, não?
- O quê?
- As estrelas.
- Por quê?
- Se nós podemos vê-las ali paradas é por que já explodiram, pararam de vagar por ai.
- E o que é que tem?
- Você não acha curioso como o fim pode ser tão belo e brilhante?
...
- Deixa pra lá, não responda. O seu silêncio já me disse muita coisa... Nos encontramos junto das estrelas menino. - E dizendo isso a menina dos olhos amargamente doces se levantou e nunca mais apareceu no parque às dez. Sumiu sem me dar notícias, fico imaginando se essas foram suas últimas palavras.
Nunca soube nada sobre ela. Era minha melhor amiga, mas tudo o que eu sabia era que ela se chamava Anne.

. Os contos de Anne, Isabelle Mariath

0 comentários:

Postar um comentário